Do marketing, dos desabafos e do tribalismo

As palavras, os comportamentos, o fazer cidade, o viver, o sobreviver. O saber. O ser. O ter. A humildade. A superioridade. As diferenças. A democracia. Estas e outras mais, muitas palavras, me ocorrem neste final de 2020. E fico a pensar que, se há coisa que tem valor é a palavra pensada para fazer, essa, vale mais, muito mais, que a palavra dita para sobreviver. Marketing, desabafos, tribalismo...Feliz ano 2021!
Nestes dias que está a findar o ano 2020, não queria fechar a porta do ano velho, e, naturalmente, abrir a janela de 2021, sem um registo da «Rota 66».
Todos os dias tomo as minhas notas para a «Rota 66», depois ou por falta de tempo, ou outra qualquer razão, lá se foi o sentido e, ficam como meros registos, nos meus caderninhos de memórias. Porque a memória para mim conta, afinal é ela que dá sentido ao que fui, ao que fomos, e, nela encontro fluxos que me permitem pensar, não tendo medo do passado e olhando o futuro com esperança. Sorrindo.
Aqui fica a «Rota 66». A todos, sem excepção, os votos de um Bom Ano 2021.
O marketing pode ser pela positiva
Hoje, dia 30 de Dezembro, pela primeira vez na vida, recebi um contacto de uma entidade bancária, de um gestor de conta, não para me propor um seguro de saúde, ou um empréstimo, ou uma qualquer outra proposta financeira, mas para se apresentar e saudar-me.
Sim, fiquei admirado, o gestor de conta contactou-me para me perguntar se carecia de algum apoio, se precisava de alguma informação ou ajuda, se estava tudo bem, e, comunicando que estava sempre disponível para qualquer contacto e colaboração.
Disse-lhe não necessitar de nada. Desejou-me um bom ano novo e que estava sempre ao meu dispor.
Gostei. Pode ser uma mera operação de marketing, mas, sendo ou não sendo, faz parte de uma estratégia que pensa a relação entidade – cliente, visando estabelecer uma relação afectiva, cordial e de diálogo, de proximidade, entre o gestor de conta e o cliente, de forma simples e cordial. Foi um gesto que registei.
Fiquei a pensar que, na verdade o marketing pode ser mais que um negócio, e que numa relação negocial pode existir mais que o mero interesse económico e financeiro. Isto é dar sentido real ao juntos somos mais fortes e que nessa união construimos futuro.
Um exemplo que o marketing, sendo também, não é, só, um meio de venda de produtos, de conquista de votos, de gerar ilusões, o marketing pode ter uma acção positiva, e, neste caso contribui para estreitar laços de cooperação e de aproximação entre as instituições e as pessoas. Dar rostos. Ter rostos. Gostei.
E fiquei a pensar naqueles imbecis que enquanto não atingem os seus objectivos são cordiais, e, depois, noutro dia, que alcançam aquele sonho de realização circunstancial, aquela posição onde se imaginam ‘donos do mundo’, mudam o comportamento e demonstram como, afinal, a vida deles não é viver, é apenas gerir a sobrevivência. Esses usam o marketing de apanha de ameijoas.
Obrigado e Parabéns ao Bankinter, por me lembrar que o marketing também é, ou deve ser, acima de tudo educação e respeito pelas difrenças.
Os manipuladores de desabafos
Um dos meus rituais matinais é a compra do jornal. Vou à papelaria, leio os títulos diversos e trago a minha companhia diária, desde o primeiro número o jornal «Público». Um jornal que faz mexer os neurónios. Um jornal que ajuda a fazer exercício mental, antes da caminhada matinal.
Por ali, ao ler os títulos, por vezes há comentários, outras vezes cruzam-se as conversas. Hoje falava-se nas dificuldades dos tempos que vivemos, quanto doloroso foi este ano 2020.
“O 2020 foi viver um dia de cada vez, mas estou farta”, dizia uma pessoa.
E falava-se em desabafos. Comentei que os desabafos fazem bem, ajudam a aliviar os neurónios.
“Sabe um desabafo, é como abrir a válvula de uma panela de pressão, e deixar sair o que dói, o que está a apertar”, comentei.
A pessoa sorriu e disse – “Não é fácil. Mas eu gosto de desabafar!”.
Acrescentei : “Sabe, nisso dos desabafos o pior é quando aqueles que nos escutam, ou acrescentam coisas que não dissemos, ou inventam coisas para além do que dissemos, ou usam o que dissemos para nos manipular”.
A pessoa sorriu e disse: “Eu sei, eu sei...”
Sorrimos.
O Tribalismo. O maniqueismo.
Acompanho e leio com atenção os textos de José Miguel Tavares, jornalista do jornal «Público», ate já lhe enviei um e-mail, a saudar textos seus, não que me identifique com as suas posições ideológicas, mas sentir que os seus textos respiram o respeito pelas diferenças, num mundo cada vez mais intolerante, mesmo, por aqueles que usam como bandeiras palavras como «união», «tolerância», «respeito», depois, na prática cultivam o ódio, o rancor, sentindo-se que têm o cérebro cheio de ventosas centrípetas. Aquilo que se pode descobrir no mito do Narciso.
Ontem, José Miguel Tavares, escreveu um texto sobre tribalismo que aconselho a leitura. Um texto pedagógico, que pode ajudar aqueles que consideram que são a única verdade de todas as verdades. O tribalismo. O maniqueismo. Esses ismos sem ismo, que não se dizem ideológicos e que acusam os «muros ideológicos», que fazem parte de muitos ismos que dizem não ser ismos. Freud explica isso!
Aqui fica a introdução do referido texto:
«Em 2020 não tivemos só pandemia – tivemos também o regresso em força do tribalismo, de uma forma bem mais intensa do que nos anos da troika. Por tribalismo entendo não apenas o desejo de pertença a uma comunidade homogénea, que exclui todo o pensamento divergente, mas também a incapacidade (genuína) de compreender as razões dos outros, considerados – para utilizar a famosa expressão de Hillary Clinton – “deploráveis”.»
Bom ano 2021.
Como costumo dizer sorriam, nunca percam o sorriso, porque o sorriso dá vida ao rosto. E o nosso rosto é o espelho da nossa identidade, única.
Divirtam-se! Sorriam!
António Sousa Pereira
LER
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